Em todo o planeta, há cerca de 264 milhões de pessoas com transtorno de ansiedade e 322 milhões com depressão, dizem as estimativas de 2017 da Organização Mundial da Saúde (OMS)

Brasil figura como o líder quando o assunto é número de ansiosos, aponta o mesmo levantamento, estando na quinta posição em relação aos quadros depressivos. Uma triste estatística para o país, principalmente se pensarmos que ambos os transtornos estão muito ligados ao estilo de vida atual e à saúde emocional, sendo causa ou agravante de outras patologias também.

Entre as muitas terapias que propõem combater esses males “na fonte”, o thetahealing vem ganhando notoriedade no país – em julho de 2019, uma busca simples pelo termo no Google trazia mais de 3,5 milhões de resultados, apenas em português. Apresentada com o nome em inglês ou simplesmente como “cura quântica”, a técnica encontra defensores e opositores em igual medida: enquanto os primeiros acreditam no potencial de cura da ferramenta, os demais questionam as supostas bases científicas – e a própria eficácia – dela.

O thetahealing é definido como uma técnica de cura energética capaz de identificar e liberar crenças e padrões de comportamento limitantes. Giti Bond, terapeuta e diretora do Portal Healing Brasil, afirma que o objetivo maior é proporcionar aos pacientes “um reencontro com a própria essência”. Também instrutora de thetahealing, Giti explica o passo a passo de uma consulta: “Através de uma meditação guiada, o terapeuta entra na frequência theta e realiza, por meio de uma conversa, uma investigação de padrões e crenças no paciente. Ao detectar as crenças limitantes, faz os comandos para liberá-las, ressignificando, dessa forma, os pontos abordados.” Como consequência de tal liberação, “o paciente pode obter uma cura em nível físico, mental e emocional, além de se abrir para uma vida de potência, autoestima, abundância e realizações”, garante.

A frequência theta citada por Giti é um padrão neural oscilante, que se manifesta em estados meditativos, hipnóticos ou de semiconsciência. Para o thetahealing, é essa frequência específica que permite ao indivíduo se conectar com sua essência de vida. Independentemente da perspectiva, há um consenso importante: são as ondas theta que se manifestam quando conseguimos relaxar, meditar e encontrar um estado emocional mais sereno e reparador.

“É nessa frequência cerebral que conseguimos acessar o local de nosso sub- consciente onde estão registrados nossos traumas, memórias, ressentimentos e crenças limitantes”, afirma Deborah Souza, terapeuta e instrutora de técnicas de cura quântica. “Uma vez conhecido o caminho para acessá-la, somos capazes de operar alterações nas questões que nos paralisam e nos sabotam diante da vida. Tudo é feito através de vários comandos que são ensinados num campo de proteção, segurança, equilíbrio e harmonia”, completa.

"A frequência theta é um padrão neural oscilante que se manifesta em estados meditativos. Portanto, conseguimos acessá-la quando encontramos um momento emocional mais sereno e reparador"

Impacto na saúde

“Os benefícios mais diretos que vejo como consequência da aplicação do thetahealing são gerenciamento de estresse, aumento de foco e o equilíbrio do sistema nervoso autônomo”, diz a médica geriatra Silvia Lagrotta. Já a terapeuta Giti Bond vê um potencial maior: “Todas as doenças são manifestações de crenças e sentimentos limitantes que carregamos em nossas vidas. Antes que a cura física possa ocorrer é preciso identificar uma crença em nós que precisa ser liberada.”
O thetahealing começou a ser apresentado ao mundo em 1995 pela norte-americana Vianna Stibal, que declarou ter sido curada de um tumor de 23 centímetros a partir da técnica que ela mesma fundou (informação nunca confirmada pelo médico que a atendeu). Nos primeiros anos de atividade, ela insistia que a “cura quântica” era capaz de vencer o câncer e chegou a dizer, em uma palestra em junho de 2011 na London School of Economics (Inglaterra), que o thetahealing permitiria até mesmo que membros amputados se regenerassem. Isso atraiu fortes críticas, e não só de médicos, mas também de terapeutas complementares.

Críticas desse tipo fizeram com que muitos instrutores e terapeutas de thetahealing adotassem uma postura mais cautelosa. Deborah Souza, por exemplo, cita algumas patologias específicas que podem ter bons resultados terapêuticos a partir da terapia. “Fibromialgia, bactéria pulmonar, prisão de ventre, diverticulite, problemas estomacais, dores localizadas, dor de cabeça cuja causa não encontra diagnóstico: esses e outros casos são passíveis de tratamento com o thetahealing”, diz.
Já Horácio Medeiros, oncologista e doutor em Ciências da Saúde, é mais específico: “Na minha visão – que é bastante pessoal e não representa a totalidade dos médicos –, de uma forma ou de outra, as práticas complementares ajudam em todas as doenças. Até porque a saúde tem três esferas: a material, a bioelétrica ou bioenergética – que é a da energia gerada pelo indivíduo – e a mental, que gerencia os processos anteriores. A medicina convencional trata apenas daquilo que se materializou, mas, se não for detido o processo energético, você não consegue deter a patologia.”

Medeiros, que também é autor do livro Alquimia da Alma (editora Viseu), lembra que as doenças autoimunes têm forte ligação com a parte emocional, a qual é trabalhada pelo thetahealing. “Mas as práticas são apenas uma ferramenta: a partir do momento em que você conhece a anatomia energética e vibracional do indivíduo, que é desenhada por meio dos meridianos apresentados pela medicina tradicional chinesa, é possível desbloquear os canais de sua energia e mudar suas partes vibracional e emocional”, diz o médico. “O thetahealing, como outras ferramentas vibracionais, pode fazer a desobstrução desses canais.”

Críticas ao método

Outro ponto controverso diz respeito ao uso do termo “quântico”. “Infelizmente, essa palavra é bastante vendável e tem sido usada para muitas coisas que são dissonantes da física. Acredito que o termo “vibracional”, conforme proposto pelo médico Richard Gerber, é mais adequado, diz Medeiros.

Segundo Maíra Siqueira Pinto, doutoranda em Ciências Médicas pela Universidade de Antuérpia (Bélgica) e mestre em Física Aplicada à Medicina e Biologia pela Universidade de São Paulo (USP), “a maior parte da literatura que já foi publicada sobre cura quântica é quase inteiramente filosófica, omitindo a matemática rigorosa que possibilita a eletrodinâmica quântica”. Maíra explica que a mecânica quântica (também conhecida pelos termos física quântica ou teoria quântica) é uma teoria fundamental da física que descreve o comportamento da matéria e da energia na escala de átomos e partículas subatômicas. Os defensores da cura quântica, nesse sentido, afirmam que os fenômenos quânticos governam a saúde e o bem-estar, sugerindo que ideias a ela associadas – como a dualidade onda-partícula – podem ser usadas para a medicina.

Giti é enfática quanto à acessibilidade da terapia. “O thetahealing pode e deve ser aplicado em si mesmo. Logo depois de realizar um curso de iniciação, chamado ‘DNA Básico’, qualquer pessoa estará apta para aplicar a técnica tanto em si mesma quanto em outras pessoas. A prática deve ser constante para maior entendimento das questões afloradas.”

Apesar de muitos terapeutas fazerem referência a vários conceitos de espiritualidade – como essência vital, “Criador” ou “Eu superior”, por exemplo –, todos eles afirmam que a técnica não está associada a nenhuma denominação de fé ou crença religiosa. “O thetahealing não tem afiliação religiosa, pois existe um respeito a todos os sistemas de crenças existentes na humanidade. Tampouco seus processos são específicos para alguma idade, sexo, raça, cor, credo ou religião determinada”, explica Deborah. No entanto, para a terapeuta, a abordagem espiritual existe “no sentido de que somos seres espirituais. Essa técnica nos traz a possibilidade da reconexão com a nossa divindade, ou ainda, em outras palavras, nos reconecta com nosso poder pessoal que perdemos ao longo da nossa existência”

 

Apesar de muitos terapeutas fazerem referência a conceitos de espiritualidade – como essência vital ou “Eu superior” –, a técnica não está associada a nenhuma denominação de fé ou crença

Questões individuais

“Assuntos financeiros, questões familiares, de relacionamento, saúde, vícios, medos, ansiedade, depressão, insônia, insegurança, melhora no desempenho profissional, autoconfiança, enfim, qualquer uma dessas questões pode ser acompanhada e tratada com as sessões de thetahealing”, garante Giti Bond. A terapeuta também deixa claro que, “em muitos casos, apenas um atendimento já é o suficiente”, não sendo incomum que a terapia apresente resultados “imediatos”. Frisa ainda que, por meio de um teste cinesiológico de resistência muscular conduzido pelo próprio terapeuta, “é possível entender se determinada crença limitante foi finalmente liberada ou se ainda permanece no sistema”, atesta a diretora do Portal Healing Brasil.

“A medicina convencional vê o corpo como uma máquina, que quebra e pode ser consertada. Mas não vê os desequilíbrios biológicos e fisiológicos em uma perspectiva integral. As terapias integrativas mexem com nossa energia vital, que não está diretamente ligada a essa versão maquínica”, diz a geriatra Silvia Lagrotta. “Todas as práticas vibracionais têm uma relação muito íntima com as emoções”, lembra o médico oncologista Horácio Medeiros. “Algumas são mais eficientes que outras, porque há de se levar em conta a capacidade do terapeuta de interferir no processo de aceitação do paciente… São muitas coisas que ainda precisamos estudar, para que se façam trabalhos científicos sólidos a respeito.”

Por ora, o thetahealing segue atribuindo a si um caráter científico que, na ver- dade, não encontra respaldo nos campos do conhecimento acadêmico, seja da física ou da alopatia. Mas não faltam pessoas que relatam bons resultados com ele (veja os relatos ao longo da matéria). O autoconhecimento proporcionado pela técnica revela-se, até o momento, o aspecto mais fértil, pois, como pontua Silvia Lagrotta, “estar consciente de si é o primeiro passo para estar saudável”.

Fonte: revista Bons Fluídos – edição 243, Setembro de 2019.